sexta-feira, março 25, 2005

Momento de viragem ou oportunidade perdida?

A paixão leva-nos a ver a árvore em vez da floresta.
Digo isso porque, com o máximo de racionalidade possível, dei por mim a pensar no futuro do futebol em Portugal.
E cheguei à conclusão de que temos à nossa frente um momento de viragem. Tenho dúvidas é que o consigamos aproveitar. Espero que sim.

Quando o ano passado o Porto ganhou a LC e recebeu aquela batelada de dinheiro, tive medo. Podiam pagar grande parte das dívidas, ter um poder financeiro sem igual em Portugal e preparar uma década de hegemonia como nunca se tinha visto.
E se daqui a dez anos, eles tivessem ganho muita coisa, a demografia do futebol português estaria inevitavelmente alterada. A marca Porto rivalizava com a marca Benfica.
Felizmente, o namorado da puta estragou tudo. Como estava empenhado até ao pescoço, assim que cheirou a dinheiro fresco, houve muita gente que quis ir lá buscar o guito que estava enterrado. Ainda bem.
Agora, não têm equipa, nem têm dinheiro. E não conseguiram angariar adeptos por causa de uma maneira idiota de estar no futebol: «Somos nós contra toda a gente». Isso resulta em clubes pequenos, mas quando o Porto quiser ter um estatuto nacional, terá de abdicar dessa estratégia. Ninguém gosta de que é feio, porco e mau. E, por isso, eles nunca conseguiram cativar os adeptos que, pelos títulos conquistados nos últimos 20 anos, mereceriam.

Em relação ao Sporting, o que posso dizer?
A equipa não é grande coisa (apesar da verborreia dos arautos do cometário futebolístico que, hoje em dia, devem sobreviver à custa de Rennies e Valiums) e a situação financeira é muito pior do que aquilo que aparece nos jornais. Lá dentro ninguém se entende.
Não têm modalidades, nem têm pavilhão. São despejados dos sítios onde treinam por falta de pagamento. A Alvaláxia é um flop. A Academia, além de ser um buraco financeiro, forma grandes jogadores de futebol, mas péssimos sportinguistas. Assim que têm carta de condução querem sair dali para outro clube.
Por aí estamos safos.

E, agora, o Benfica.
Devagar, devagarinho, as coisas vão-se compondo. Afinal, há cinco anos, era a sobrevivência do clube que estava em causa. Não podem pedir milagres.
A equipa de futebol é boa, mas não sei se estará cá para o ano. Temo que vai haver gente importante a querer ir embora. Se o Miguel quiser ir, que vá. Espero que fique o The Rock, o Manuel e o Petit.
O Estádio foi feito, mas falta o centro de estágio. E isso é fundamental. Mas concordo: não há dinherio, não há palhaços.
Em relação à formação, o trabalho do António Carraça tem sido extraordinário. A estrutura que ele está a montar vai dar grandes frutos, tenho a certeza.
Nas modalidades, orgulho-me de ter os pavilhões que tenho. Não são muito grandes, mas, ao menos, existem. Outros há, que gritam por ecletismo, mas que jogam em casa emprestada. E as equipas das modalidades são um exemplo de benfiquismo. As que ganham e as que não ganham. Grande trabalho!
E, financeiramente, estamos a dar a volta.
Até o discurso está a ser mais inteligente. Os slogans dos «novos heróis» e da «geração Benfica» são muito bem metidos. Bravo!
Falta ganhar mais, a dinâmica de vitória é o que falta para darmos o salto. Isso vê-se. Tirando meia dúzia de parvos, não há euforia. Está tudo expectante e a pensar. «E se eles conseguirem? Não vou dizer nada. Já sofri tanto e tive tantas desilusões nos últimos dez anos. Vou mas é ver o que isto dá!»
Só falta essa dinâmica.
Isso, o Veiga na rua e um presidente de jeito.